12/11/2018 às 13:17 Eventos Culturais

2018: o ano em que Caxias retrocede no investimento em cultura

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Em outubro deste ano, ficamos sabendo que dificilmente haverá edital do Financiarte em 2018. Havia expectativas de atrasos, mas ninguém queria acreditar que a Prefeitura não publicaria o edital, algo inédito, depois de mais de dez anos de funcionamento. A atual gestão tanto não lançou como parece não se importar com esse importante instrumento de fomento à cultura. Essa ação, ou melhor, essa não ação do Executivo, significa que muitos projetos culturais não serão realizados em Caxias do Sul no próximo ano. O que já estava ruim, vide o corte de recursos - de R$ 2 milhões investidos nos anos anteriores para R$ 600 mil em 2017 - ficou muito pior. O prefeito e seus gestores deixam claro o seu não compromisso com a cultura, deixam claro que cultura não é prioridade, não é relevante para o município. É uma ideia tão triste e atrasada de administração que, para além da revolta, provoca nossa incredulidade e descrédito com o poder público. 

Cinema de Verão/ Fevereiro 2018/ Caxias do Sul

Sem o Financiarte, que existe desde 2009 e permite até dois editais por ano, haverá menos oportunidades de acesso da população à cultura, menos eventos públicos, menos pessoas da cadeia produtiva obtendo seu sustento, menos arte no cotidiano das pessoas. A cidade fica mais triste, mais infeliz, menos bela. Aproveito para indicar o importante texto do Breno Dallas, que há anos trabalha com cultura em Caxias, sobre como o Financiarte mobiliza a cadeia da cultura e diversos setores de serviço da cidade. Também vale a pena a leitura do especial do Pioneiro sobre o impacto do não lançamento do edital no setor cultural.

Festival Especial / Dezembro de 2017/ Caxias do Sul

Não bastasse o reduzido número de projetos aprovados em 2017 - apenas 18 de 184 inscritos, a Prefeitura ainda entra na Justiça alegando inconstitucionalidade do Financiarte, que obriga a destinação ao fundo de 1% da receita proveniente da arrecadação do ISSQN e do IPTU. Em agosto deste ano, o Tribunal de Justiça do RS julga procedente a ação e libera o executivo municipal dessa obrigatoriedade. É surreal e absurdo: a Prefeitura entrando na Justiça para se assegurar que ela não precisa investir em cultura. Certamente esse será um dos tristes legados deixados pela atual administração.

Cultura Hip Hop nas Escolas / Maio de 2018 / Caxias do Sul

Moro em Caxias desde 2017, mas comecei a frequentar a cidade com certa regularidade bem antes, em 2012. Eu vinha para cá aos finais de semana e chamava minha atenção a quantidade e qualidade da programação cultural. Eu frequentava eventos culturais ótimos, todos gratuitos; assistia a apresentações artísticas em espaços públicos, comprava CDs de bandas independentes. Boa parte dessas iniciativas e projetos que eu admirava foi viabilizada pelo Financiarte. Impressionava-me a efetividade dessa lei na área cultural, ainda mais porque na minha cidade, Santa Maria, não existia incentivo semelhante.  Lá é difícil viabilizar boas iniciativas culturais, públicas e gratuitas. O apoio do poder público deixa muito a desejar. Para não ser injusta, este ano houve o lançamento de um edital de apoio à produção artística e cultural com aporte de 187 mil reais (em torno de 150 mil vem do Fundo Pró-Cultura), nem perto dos dois milhões já investidos pelo Financiarte. Enquanto em Santa Maria e em milhares de outros municípios não existe um fundo desse modelo, aqui em Caxias do Sul, tem (ou tinha?) essa ferramenta maravilhosa, que viabiliza projetos nas mais diversas áreas das artes. Eu falava sobre o Financiarte com parentes e amigos, me orgulhando de certa forma da cidade que escolhi para morar, uma cidade que valoriza a cultura. Para as pessoas de fora que vinham me perguntar do Festival de Blues, eu dizia que havia coisas muito mais legais, gratuitas, públicas, populares.

Oficina de Artesanato/ Março, Abril, Maio de 2018/ Caxias do Sul

Conheço muitas pessoas aqui em Caxias que se dedicam ao trabalho com a cultura, que fazem o seu melhor para a cidade ter acesso a iniciativas culturais de qualidade no segmento das artes culturais, do cinema e vídeo, da dança, do folclore, do artesanato, da literatura, música e teatro. Tristemente, boa parte desses projetos estão agora comprometidos, condenados a não serem realizados. E tudo isso por má gestão de uma administração municipal que parece não compreender a importância da cultura para o desenvolvimento da sociedade. Infelizmente, o que se vislumbra é a expansão do pensamento que despreza a arte como responsabilidade dos gestores públicos. 

Fica difícil saber como agir. Para além de se lamentar, é preciso pressionar nossos representantes políticos, como os vereadores, engajar-se publicamente, pautar o Financiarte nas próximas eleições municipais, resistir às dificuldades atuais e buscar caminhos alternativos para que a produção cultural continue existindo.

Atualização: 

E não é que em 21 de novembro de 2018, na finaleira do ano, a Prefeitura lança o edital para selecionar os projetos que pretendem receber aporte financeiro do Financiarte. Nada a se comemorar muito em vista do valor do recurso disponibilizado: apenas 150 mil reais (lembrando que o Financiarte já teve edital de mais de dois milhões). O desalento dos produtores e artistas foi tanto que apenas 23 projetos se inscreveram no edital, número oito vezes menor do que o registrado em 2017, quando 184 iniciativas disputaram os 600 mil reais dispostos pelo Executivo. Isso deveria ser motivo de vergonha de parte da Prefeitura, mas talvez não seja, considerando o histórico de descaso dessa administração com o Financiarte.

Bem triste!

Texto: Silvana Dalmaso

Fotos: Jessica Melinda

12 Nov 2018

2018: o ano em que Caxias retrocede no investimento em cultura

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