Imagem capa - HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC (1864-1901) por Jessica Melinda
História da Arte

HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC (1864-1901)

Henri de Toulouse-Lautrec nasceu em uma noite de tempestade em 24 de novembro de 1864, em Albi, uma cidade pré-romana da França, de família de aristocratas descentes de grandes condes medievais Toulouse e Lautrec. Foi um importante artista pós-impressionista francês, retratando a sombria Paris do final do século XIX com pinturas, cartazes publicitários, ilustrações, litografia, caricaturas, revolucionou o design gráfico e influenciou a Art Nouveau. Captou alegres cenas da boêmia parisiense nos bailes, cafés concertos, circos e espetáculos, invadido pelos efeitos do submundo da promiscuidade e alcoolismo.


Seus pais eram primos de primeiro grau, e em consenso médico devido a séculos de casamentos inter-familiares, Henri foi diagnosticado com uma disfunção genética chamada osteogênese imperfeita.  Aos 14 anos o estado dele ficou crítico quando quebrou as duas pernas em um período de um ano, tornando-o deficiente em seu crescimento. Após o acidente, ganhou um livro sobre pássaros de seu pai, admirador de arte, com a seguinte dedicatória: "Lembre-se meu filho, que a única maneira saudável de viver é ao ar livre e a luz do sol. Tudo aquilo que tiram a liberdade perde-se a identidade e logo morre". Aos 17 anos pintou sua primeira tela a óleo representando seu pai, o excêntrico Conde Alphonse de Toulouse-Lautrec-Monfa, metaforicamente em um pedestal de maneira melancólica com uma ideia de espetáculo, com um traje fantasioso em uma vida que jamais Henri teria devido ao acidente, mas que no seu futuro seria fundamental para sua arte. Quando adulto se fantasiava em seu ateliê para ir as festas e ser fotografado.  A relação entre pai e filho se tornou cada vez mais distante, assim aproximando-se cada vez mais da mãe, a Condessa Adèle de Toulouse-Lautrec, uma mulher culta, reservada e carinhosa, que a retratou muitas vezes. Usava pinceladas vibrantes e dinâmicas, afinava a tinta, não pintava partes da tela, utilizava muitos efeitos de luzes, ligando os retratos ao fundo da imagem.


O estilo de Toulouse-Lautrec progrediu através da sua enorme consciência do movimento Impressionista, que absorveu quando viajava a Paris, observava obras de Edouard Manet e Claude Monet. Usava muitas referências  de Paul Cezanne com as pinceladas separadas e técnicas de hachuras, usava cores e traços livremente. Porém o que lhe chamava atenção não eram os espaços abertos, mas sim lugares metropolitanos.


Mudou-se para Paris, auto exilado da família, foi estudar arte e trabalhar nos atelies de René Princeteau, amigo da família e  Léon Bonnat, um conceituado conservador acadêmico. Em 1884 morou em Montmartre, um bairro parisiense que era o centro de entretenimento da capital. Artistas e artesões habitavam ali pelo baixo aluguel, cabaret, cafés e salões de dança. O local mais conhecido era o Moulin de La Galette, construído em um antigo moinho de vento, com restaurantes, bares e salões de dança na parte interna e externa. O complexo era frequentado por todas as classes sociais. Henri encantado circulava em todos os espaços, conversava com artistas a gigolôs (a prostituição era regularizada na época), sempre bebendo conhaque ou absinto, o que o tornara alcoólatra. 


Namorou com a calma e doce cantora Carmen a Montrouge, com o nome artístico de Rosa La Rouge, que durante o dia trabalhava como lavadeira. Retratou ela em diversos quadros a óleo, com seu cabelo ruivo e flamejante, com um pincel quase seco, o rosto com tinta mais espeça mostrando a palidez da pele, usando a luminosidade Impressionista, combinando com a luz teatral ou de palco. 




1887: At Montrouge (Rosa la Rouge)

Inspirado por Edgar Degas, com quem dividiu uma parte da casa onde morou, usou desenhos fortes e escuros, com cortes das imagens de forma dramática, como o artista mais velho que aprendeu na arte japonesa e com técnicas da fotografia. Henri também usou pastéis e carvão, experimentando também pituras sobre cartão, exatamente como Degas fazia.


Produziu por encomendas para jornais e revistas, tornando seu publico mais amplo do que somente quem frequentava galerias de arte e museus. A favor da ideia pública de critica da qualidade da arte e boa moralidade, a partir da retratação do seu estilo de vida que ofendia o bom senso burguês, tornou-se um cronista do submundo urbano.


Sua grande musa, o Moulin Rouge, salão de baile parisiense que abriu em 1889, era bastante frequentado por Toulouse-Lautrec, e por toda a população de Paris. Este local estava no ápice do entretenimento em Montmartre, um espaço de grande fantasia, tudo que o artista apreciava para colocar em suas obras. Em 1891, Charles Zidles, proprietário do Moulin Rouge, contratou o artista para fazer o segundo poster de propaganda, obra para promover o local, também projetou Toulouse-Lautrec para um público muito mais amplo, onde mostra a dançarina La Goulue apresentando sua extraordinária dança, A Guitar, no seu ritmo uma perna formando um ângulo reto, enquanto sua mão segura a outra perna para dedilhar uma guitarra imaginária, no primeiro plano na imagem encontra uma silhueta do dançarino Jules Étienne Edme Renaudin, com nome artístico Valetin le Désossé, pois era muito flexível quando dançava, filho de um advogado aristocrata, comercializava vinhos durante o dia. As figuras são sobrepostas em planos, sem a sensação de volume, com ponto de vista elevado, lembrando a fotografia, usa cores vivas sem muita tonalidade, fazendo referência a arte japonesa e no fundo as sombras representam a platéia olhando para o observador que vê o cartaz, ajusta as letras ao tamanho da imagem, tornando unificada. Foi impressa em três cores. As pessoas tiravam das ruas, usada como meio de divulgação da apresentação, para levar para suas casas e usar como uma obra de arte, considerado o primeiro poster moderno.




1891: Moulin Rouge La Goulue

Pintou Jane Avril francesa, aristocrata e dançarina de Cancan, devido a sua energia fervorosa como artista foi chamada de La Mélinite, traduzido como Dinamite. 




1892: Jane Avril Dancing

Usava a litogravura para os cartazes, uma técnica de gravura baseada na pedra calcária, representando só o que era necessário, mantendo as linhas de construção, pois não era uma cópia da realidade, o desenho mais solto, retrata a velocidade da vida moderna, priorizando a alma do retratado.




1893: Jane Avril


Lautrec produziu diversos posters, relacionando-se diretamente com a mídia de massas, tirando a arte do momento de um pedestal, e colocou nas prensas em plena era da reprodução mecânica em meio a revolução industrial. 




1893: Divan Japonais

Desenhou como uma borboleta em movimento sob as luzes da ribalta, forma de disposição de refletores em desuso atualmente, a famosa atriz e dançarina americana Loie Fuller, em uma imagem dançante.




1893: Lo e Fuller in

Retratou também Yvette Guilbert, conhecida cantora francesa, que usava luvas pretas como marca registrada.




1894: Yvette Guilbert

Na imagem abaixo, uma dança apresentada no circo do Papa Chrysathmè, produzida com poucos instrumentos, óleo sobre a madeira com tinta diluída, com três linhas que definem o vestido da bailarina, curvada para traz trazendo movimento, e no primeiro plano duas figuras estáticas, em poses de balé que amplificam o espaço no desenho em um palco pequeno. A força da pintura está na dinâmica das pinceladas. Este foi um dos seus modos de expressão artística.



1894: Ballet de Papa Chrysanthmè

Interessava-se muito pelas artistas que se apresentavam no Moulin Rouge, contratava como modelos e também as tentava captar elas na pista de dança. Uma artista em particular, Louise Weber, conhecida pelo seu nome artístico La Goulue, era uma grande atração da casa, pelo seu Cancan, era a personagem central, acabou sendo a obra abaixo a mais famosa de Henri.




1895: Baraque de la Goulue à la Foire du Trône

As dançarinas de Montmartre foram eternizadas pelo pintor, criando fama como celebridades históricas, através de seus cartazes com características semelhantes a fotografia que viria no século XX. Abaixo a atriz, palhaça profissional e homossexual Cha-u-Kao retratada por Toulouse.




1895: The clownesse Cha-u-Kao at the Moulin Rouge


No fim do século XX, os limites entre os gêneros artísticos difundem-se, as artes gráficas se tornam interessante para os pintores, já era um aspecto da modernidade, uma expansão na arte que Lautrec contribuiu com a sua obra.


Em 1898 a saúde de Toulouse-Lautrec entra em declínio, com a exaustão, a sífilis e o abuso de álcool, perdendo o controle do seu emocional, vivendo em bares, conversando sozinho e com ataques de delírio. Em março de 1899 foi internado em uma clínica psiquiátrica nos interiores de Paris, escreve para seu pai em resposta a dedicatória do livro que ganhou após acidente nas pernas: "Papa, esta é sua chance de agir decentemente, estou confinado, e tudo que está confinado morre". 


Após dois meses internado a força, deixou a clinica, e também uma explicação para a mídia, aumentando sua fama e importância, tornando o muito solicitado pelo seu trabalho. Mudando as tonalidades das cores, deixando sua obra mais sombria, com o toque leve no assunto principal, porém o fundo e primeiro plano escuros contrastando, como em uma homenagem para o artista Rembrandt. Utiliza uma composição clássica em relação as pinturas anteriores, com um certo movimento que sugere o seu estado mental cada vez instável.


No início de 1901 um amigo, sugere fazer uma exposição de retrospectiva, para aumentar o ânimo de Henri e capitalizar o interesse do público por sua obra. Passou quase cem dias em seu ateliê, trabalhando, retrabalhando, realizando a curadoria, finalizando pinturas, para deixar tudo em ordem. Foram mais de 700 trabalhos à óleo, 300 aquarelas, 350 gravuras e 5000 desenhos, em apenas 15 anos de trabalho. Em agosto do mesmo ano sofreu um ataque de paralisia e voltou a morar com sua mãe, e morre nos seus braços em 9 de setembro, com 36 anos. Sua fama prosperou mais ainda, e em 1922 a sua cidade natal ganha um Museu dedicado para sua obra. 


Texto por Jessica Melinda

Revisão por Ms. Jennifer Gabriele Rodrigues


REFERÊNCIAS:

Documentários:

- The Impressionists, 1998, de Ali Ray, Phil Grabsky e Tim Marlow

Sites:

www.wikiarte.org (galeria de imagens)

Livros:

Filmes:

- Moulin Rouge, 1952 por John Huston

Material Didático:

- Do Olhar Encantado ao Cérebro Pensante de Ms. Pio de Souza Santana